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Briga por níquel do Brasil expõe disputa global por minério vital para a transição energética



Foto: Divulgação
Complexo da mineradora Anglo American em Barro Alto (GO), para beneficiamento e refino de níquel 24 de agosto de 2025 | 14:00

Briga por níquel do Brasil expõe disputa global por minério vital para a transição energética

Na pequena Barro Alto, localizada na região norte de Goiás, o único semáforo instalado no centro da cidade parece não ter serventia. Com seus 12 mil habitantes, o município goiano segue um ritmo pacato, debaixo de um sol de 40 graus. Em nada aparenta ser o palco de uma disputa bilionária global por jazidas de níquel, um mineral crítico e estratégico para a indústria.

Barro Alto e suas montanhas do minério expõem, com fatos, os movimentos geopolíticos que têm mexido com o destino de nações como os Estados Unidos, a China, países da Europa e o Brasil.

A Anglo American, multinacional de origem sul-africana e britânica que opera na cidade desde 2004, decidiu vender no início deste ano sua planta de níquel para a MMG, um braço da estatal chinesa China Minmetals Corporation. Além da unidade de Barro Alto, entraram na negociação outra planta em Niquelândia (GO) e dois projetos novos de exploração, no Pará e no Mato Grosso.

O negócio avaliado em US$ 500 milhões, o equivalente a mais de R$ 2,7 bilhões, marca a entrada da chinesa MMG no mercado brasileiro de níquel, ampliando o alcance de Pequim sobre um insumo considerado vital para a transição energética. As reações, porém, foram imediatas.

Na Europa, a transação pode virar processo em apuração pela Comissão Europeia. No Brasil, conforme informações obtidas pela reportagem, o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) acaba de ser acionado. Por trás de acusações de concentração de mercado e de supostas negociações duvidosas está uma concorrente holandesa, a Corex Holding.

Controlada pelo bilionário turco Robert Yüksel Yıldırım, a empresa via nas minas brasileiras o passaporte para encarar a disputa global com os chineses no mercado do níquel. Dona de plantas de ferroníquel no Kosovo e na Macedônia do Norte, a empresa depende do mercado europeu para escoar sua produção. O negócio brasileiro a traria para as Américas.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Yıldırım disse que não desistiu da aquisição e afirma estar contrariado porque fez uma oferta que representava quase o dobro do valor pago pelos chineses. No entanto, não foi declarado vencedor.

“Vou ser muito honesto, meu preço foi de US$ 900 milhões [R$ 4,9 bilhões]. Coloque-se no meu lugar. Quando você dá um preço muito superior, quase o dobro do outro concorrente, espera pelo menos uma ligação explicando: ‘Yıldırım, por essas razões decidimos não vender para você, escolhemos o outro ofertante, o chinês’. Isso não ocorreu e não sei o motivo. Eles terão de explicar”, disse o empresário.

Na petição entregue em Bruxelas e no Brasil, a Corex afirma que a compra das unidades brasileiras pela MMG aumenta ainda mais a concentração de mercado sob controle chinês, fazendo com que ao menos 60% da oferta global de níquel fique nas mãos de empresas ligadas a Pequim.

“Essa operação ameaça a concorrência e também coloca em risco a segurança de suprimento da União Europeia”, argumentou a companhia, em sua petição.

O caso insere o Brasil em uma disputa maior. A China domina hoje o refino de minerais críticos como níquel, cobalto e terras raras, mas ainda depende de minas no exterior para alimentar suas fundições. Por isso, corre para adquirir ativos estratégicos em diferentes continentes.

A Comissão Europeia ainda não decidiu se vai abrir uma investigação aprofundada sobre a aquisição das operações brasileiras Anglo American pela MMG.

A ofensiva chinesa sobre minas e refinarias de níquel em todo o mundo, especialmente na Indonésia, tem derrubado os preços internacionais, dada a dimensão do controle asiático sobre produção e preços do insumo, que é usado na produção de aço inoxidável e baterias. Por esse motivo, a disputa no Brasil assume aspectos decisivos sobre os rumos do setor, um movimento acompanhado com lupa pela gestão de Donald Trump, nos EUA.

Na carta que enviou ao Cade, a Corex argumenta sobre a concentração de mercado. “No Brasil, as operações de Barro Alto e Codemin (Niquelândia) responderam por 62% da produção nacional de níquel em 2024. A concentração decorrente da operação é, portanto, alarmante”, afirma a empresa. Os dados da Anglo American apontam que essa fatia seria de 52%.

O Cade não comenta processos em andamento.

À reportagem, a Anglo American declarou que a venda de seu negócio de níquel “faz parte da simplificação do portfólio global da companhia, que visa focar na produção de cobre, minério de ferro de alto teor e nutrientes agrícolas”.

Sobre a escolha da oferta chinesa, a empresa declarou que “todo o processo de seleção dos interessados pelo negócio foi feito de forma rigorosa, buscando um comprador responsável” para assumir a operação. “A companhia acredita que o acordo com a MMG representa uma grande realização para os empregados, comunidades locais, acionistas e demais partes interessadas”.

Jorge de Carvalho, diretor de integração da MMG para a nova “Nickel Brazil”, empresa que vai tocar as operações dentro do grupo, disse que não há dinheiro estatal chinês na transação e que a MMG, que é estatal, está financiando a aquisição no Brasil com sua própria liquidez.

“Claro que a China Minmetals Corporation continua sendo nosso principal acionista e tem dado forte apoio a essa aquisição e à estratégia de crescimento da MMG”, declarou.

Questionado sobre como a MMG pretende lidar com questões regulatórias no Brasil, Carvalho disse que a companhia vai atender a todos os requisitos. “Nossa equipe trabalhará em estreita colaboração com os reguladores locais para compreender e responder de forma transparente a quaisquer questionamentos”.

A MMG preferiu não detalhar por que foi a vencedora da oferta. “A equipe da Anglo American é a melhor para falar sobre sua decisão e sobre quem estava competindo com a MMG pelo ativo. Na nossa visão, fazer negócio com a Anglo American foi especialmente importante, já que compartilhamos valores semelhantes”.

Arena da disputa, a pequena Barro Alto vive uma fase de expectativa. “A Anglo ajudou bastante o município a crescer, mas de uns anos para cá a cidade parou no tempo”, diz Iran Fernandes, vice-presidente da Aciaba (Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Barro Alto). “A mineração foi boa, porque tirou Barro Alto da pré-história, mas não colocou no futuro. Ficamos no meio do caminho. A MMG pode dar um F5 nisso. A gente espera que as coisas mudem”.

André Borges/Folhapress



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INSS registra crédito consignado ativo para beneficiários que têm mais de 120 anos



Foto: Pedro França/Agência Senado/Arquivo
Previdência Social 24 de agosto de 2025 | 16:45

INSS registra crédito consignado ativo para beneficiários que têm mais de 120 anos

O INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) registra a existência de 86 contratos de crédito consignado ativos para beneficiários com mais de 120 anos, segundo dados obtidos pelo jornal Folha de S.Paulo por meio da LAI (Lei de Acesso à Informação).

Embora a quantidade não seja significativa perante a soma total de contratos ativos (57,3 milhões), os dados chamam a atenção porque a existência de pessoas vivas nessa faixa etária é incomum.

A reportagem solicitou ao INSS, em 13 de agosto, o número de beneficiários com mais de 120 anos, já que não há informações públicas com esse recorte. O órgão pediu tempo extra para responder, afirmando que dependia de uma extração de dados a ser feita pela Dataprev (empresa pública de tecnologia que presta serviços à Previdência). O prazo foi concedido, mas o INSS não respondeu.

Procurada, a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) disse, em nota, que não só desconhece casos de consignado para aposentados com 120 anos ou mais, mas também repudia a oferta de qualquer produto bancário que desconsidere a adoção de políticas preventivas voltadas à proteção de clientes mais vulneráveis, como idosos de idade avançada.

“Ademais, não parece minimamente imaginável que uma pessoa de 120 anos tenha tomado um empréstimo bancário, a não ser que o registro dessa informação decorra de erro material nos dados cadastrais do cliente ou seja fruto de golpe ou fraude. E, hoje, no Brasil, não há registro sobre pessoas vivas com 120 anos ou mais”, afirmou a entidade.

A Febraban disse ainda que as instituições financeiras são bem mais conservadoras na concessão de crédito para clientes com idades mais elevadas. Algumas oferecem prazos menores para pagamento ou preferem nem operar com este público.

A ABBC (Associação Brasileira de Bancos) afirmou, em nota, que “as políticas de concessão de crédito são definidas individualmente por cada instituição financeira, de acordo com seus próprios critérios”. A entidade disse ainda que “desconhece a existência de práticas discriminatórias”.

Os empréstimos consignados para aposentados e pensionistas do INSS entraram na mira de autoridades na esteira das investigações sobre o esquema de fraude nos descontos de mensalidades associativas, alvo da operação Sem Desconto.

As mensalidades e o crédito consignado são produtos diferentes, mas há a suspeita de que ambos foram usados para cometer irregularidades.

No início de 2024, a CGU (Controladoria-Geral da União) apontou, em relatório de auditoria, fragilidades relacionadas à fidedignidade das informações registradas nos consignados, possíveis averbações de empréstimos em benefícios inelegíveis e contratos celebrados com taxas de juros acima do teto fixado pelo governo.

No entanto, o trabalho não foi conclusivo devido a possíveis falhas de validação do sistema de consignados e envio de informações de forma incompleta ou inconsistente. A CGU recomendou uma mudança nas regras da modalidade.

Dados do INSS mostram um crescimento na averbação de créditos consignados —momento em que o contrato é registrado, e a instituição financeira é autorizada a descontar as parcelas de pagamento. Em janeiro de 2025, foram averbados 3,1 milhões de contratos, alta de 55,5% em relação a igual mês de 2024 (2 milhões de contratos).

A advogada Joseane Zanardi, coordenadora regional do IBDP (Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário), afirmou que a existência dos 86 contratos de consignado para pessoas com mais de 120 anos chama a atenção.

“Eu acho bastante curioso. Esses beneficiários estão vivos, ou são benefícios fraudados? É uma informação que me causa estranheza, não é um número tão pequeno”, disse.

“Pode ter mais de um contrato por pessoa, dentro do limite consignável. Mas talvez seja um ponto que precise ser analisado com mais atenção, para verificar se não tem nenhum tipo de irregularidade na manutenção desses benefícios e também na concessão desses consignados”, avaliou Zanardi.

Os dados fornecidos por meio da LAI reúnem contratos firmados entre junho de 2020 e junho de 2025 e que permaneciam ativos até o mês passado, informação mais recente disponível. Os números contemplam três modalidades de consignado: empréstimo, cartão de crédito e cartão de benefícios.

Os consignados para pessoas com mais de 120 anos são descontados principalmente de benefícios de pensão ou aposentadoria rural. Apenas cinco contratos estão vinculados a espécies urbanas de pensão.

Um técnico com experiência na área de Previdência avaliou, sob reserva, que os dados indicam possíveis erros de cadastro ou, mais grave, irregularidades nos benefícios e nos consignados.

Segundo o INSS, existem outros 2,5 milhões de contratos ativos de beneficiários com idade entre 80 e 120 anos. Nessa faixa etária, a tomada de crédito não é proibida, mas tende a ser mais difícil ou custosa devido ao maior risco de inadimplência, uma vez que o pagamento da prestação depende da continuidade do benefício.

A legislação prevê que, em caso de morte do tomador de consignado do INSS, o saldo do empréstimo é automaticamente quitado. Para as instituições que concedem o crédito, esse é um fator adicional de risco na análise da operação.

Zanardi, do IBDP, citou que há um problema comum de familiares realizarem a contratação de consignados em nome de um parente beneficiário do INSS, principalmente quando eles vão ficando mais velhos. “Existem abusos nesse sentido”, afirmou.

CRÉDITO PARA IDOSOS ABAIXO DE 60 ANOS

Os dados do INSS obtidos via LAI também mostram 890 contratos ativos de crédito consignado para beneficiários do BPC (Benefício de Prestação Continuada) com menos de 60 anos, apesar de a lei fixar uma idade mínima de 65 anos para receber a assistência.

Os dados consideram apenas o BPC idoso, sem contabilizar operações vinculadas ao benefício para pessoas com deficiência, para o qual não há idade mínima.

Procurado, o INSS não esclareceu quantas pessoas com menos de 65 anos recebem o BPC idoso, nem quais seriam as circunstâncias da eventual concessão desses benefícios (se houve determinação judicial, por exemplo).

Para a coordenadora do IBDP, o dado também chama a atenção. “Pela legislação em vigor, BPC idoso somente é concedido acima de 65 anos”, afirmou.

Idiana Tomazelli/Folhapress



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Sema reforça brigadas voluntárias do município de Cícero Dantas com novos equipamentos


Sema reforça brigadas voluntárias do município de Cícero Dantas com novos equipamentos
Sema reforça brigadas voluntárias do município de Cícero Dantas com novos equipamentos

Fotos: Matheus Lemos- Ascom/Sema

A Secretaria do Meio Ambiente do Estado da Bahia (Sema) realizou, nesta quarta-feira (27), a entrega de uma nova remessa de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e Equipamentos de Combate (EPCs) para os brigadistas voluntários do município de Cícero Dantas. A iniciativa, realizada na sede do órgão em Salvador, integra as ações do Programa Bahia Sem Fogo, coordenado pela secretaria.

Os equipamentos terão papel fundamental para reforçar a segurança e a eficiência dos brigadistas, que atuam de forma voluntária na linha de frente contra os incêndios florestais. Além de ampliar a capacidade de resposta, os itens asseguram a integridade física dos combatentes, reduzindo riscos à saúde e preservando vidas.

“Essa iniciativa da Sema foi viabilizada através da execução de emendas parlamentares. Trata-se de um mecanismo importante, recentemente regulamentado pelo governo federal, que permite o uso de emendas para a aquisição de equipamentos de prevenção e combate a incêndios florestais e integra como mais uma ação voltada à implementação da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo pelos estados”, afirma o coordenador da Diretoria de Programas e Projetos (DIPRO), Pablo Rebelo.

Nos últimos anos, o programa distribuiu milhares de itens de combate para brigadas em diferentes regiões do estado, como Oeste e Chapada Diamantina. Essas ações têm contribuído para conter focos de incêndio, reduzir danos ambientais e proteger áreas de grande relevância ecológica.

“Quero aqui agradecer ao Governo do Estado pela ajuda ao combate às queimadas, que tanto nos preocupam, não só aqui, mas em toda a região. Nós estamos atuando em parceria com municípios vizinhos, e, sempre que necessário, estamos à disposição para ajudar. Esse material que recebemos hoje é de grande relevância para enfrentarmos as necessidades críticas que surgem, especialmente no período do verão”, destacou o Secretário de Meio Ambiente de Cícero Dantas, Milton Nunes.

Avanços em nível nacional e estadual

A entrega dos equipamentos ocorre em um momento de fortalecimento da política nacional de prevenção e combate a incêndios florestais. No ano passado, durante as comemorações pelo Dia Mundial do Meio Ambiente (5 de junho), foi sancionada a lei que cria mecanismos para ampliar a resposta a incêndios florestais e situações de emergência ambiental em todo o país.

A Lei nº 14.944/2024, que institui a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, disciplina a articulação entre União, estados e municípios, além de reconhecer o papel ecológico do fogo em determinados ecossistemas e valorizar práticas tradicionais de uso controlado pelas comunidades locais.

Entre os avanços, destacam-se a transferência de recursos diretamente do Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA) para estados e municípios; a redução do prazo para recontratação de brigadistas, agora em três meses; a simplificação para uso de aeronaves estrangeiras em emergências ambientais; a inclusão de emendas parlamentares como fonte de recursos para o FNMA e o financiamento de projetos de prevenção, combate e apoio à fauna atingida por incêndios florestais.

No âmbito estadual, o Governo da Bahia também deu um passo importante com a publicação do Decreto nº 23.835, de 16 de julho de 2025, que institui oficialmente o Programa Bahia Sem Fogo como política estadual de prevenção e combate a incêndios florestais. O programa tem como finalidade planejar e desenvolver atividades voltadas à prevenção, monitoramento, resposta, recuperação de áreas degradadas e responsabilização de incêndios em unidades de conservação e áreas de interesse ambiental.

Entre seus objetivos, estão a redução da incidência de incêndios, a proteção da biodiversidade, o resgate e a reabilitação de fauna silvestre impactada, a preservação dos recursos hídricos e a promoção de ações de educação ambiental. O decreto também estabelece que o programa será gerido pelo Comitê Estadual de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais, composto por diferentes órgãos do Executivo estadual, em articulação com a sociedade civil.


IPI zero para ‘carros verdes’ cresce venda, mas governo não fatura



Foto: Reprodução/Instagram
No sábado (23), o vice-presidente e ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, participou de visitas a concessionárias em São Paulo 24 de agosto de 2025 | 18:31

IPI zero para ‘carros verdes’ cresce venda, mas governo não fatura

A isenção de IPI sobre veículos novos menos poluentes fez a média diária de vendas saltar de 437, em julho do ano passado, para 509, em julho deste ano.

Para a Anfavea, a associação das montadoras, e o ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, o crescimento de 17% nessa média se deve ao lançamento do programa Carro Sustentável, em vigor desde 11 de julho deste ano.

Para ter acesso aos benefícios, as montadoras terão de atender a alguns requisitos. Os veículos precisam emitir menos de 83 gramas de CO2 por quilômetro, ter etapas essenciais de produção no Brasil (o que exclui os elétricos chineses disponíveis hoje) e alcançar, pelo menos, um índice de 80% de reciclabilidade.

No sábado (23), Alckmin participou de visitas a concessionárias em São Paulo. Em uma de suas publicações nas redes sociais, o ministro afirmou que, em umas lojas da Volkswagen, as vendas quase dobraram.

Na comunicação do governo federal, no entanto, os resultados passam despercebidos, sem a publicidade esperada pelos fabricantes e até pelo ministério.

Julio Wiziack /Folhapress



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Sob Trump, EUA se afastam do livre-mercado e se aproximam do capitalismo de Estado chinês e europeu



Foto: Reprodução/Instagram
O presidente dos EUA, Donald Trump 24 de agosto de 2025 | 20:01

Sob Trump, EUA se afastam do livre-mercado e se aproximam do capitalismo de Estado chinês e europeu

As empresas privadas americanas têm um novo investidor com quem se preocupar: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Desde que tomou posse, Trump inseriu o governo em empresas americanas de maneiras extraordinárias, incluindo a aquisição de uma participação na U.S. Steel e a pressão por uma redução nas receitas da Nvidia e da Advanced Micro Devices (AMD) provenientes da China.

No mês passado, o Pentágono anunciou que iria adquirir uma participação de 15% na MP Materials, uma grande mineradora americana de terras raras. E, na sexta-feira, 22, a Intel concordou em permitir que o governo dos EUA adquirisse uma participação de 10% em seus negócios, no valor de US$ 8,9 bilhões.

Esses movimentos podem anunciar uma mudança do tão alardeado sistema de livre-mercado dos Estados Unidos para um que se assemelha, pelo menos em alguns aspectos, a uma forma de capitalismo estatal mais frequentemente visto na Europa e, em diferentes graus, na China e na Rússia, afirmam advogados, banqueiros e acadêmicos versados na história de aquisições hostis e negócios internacionais.

As ações de Trump estão levando banqueiros e advogados de Wall Street a se apressarem para ajudar as empresas a elaborar um plano de ação para se defenderem ou, pelo menos, encontrarem maneiras de apaziguar Trump.

“Praticamente todas as empresas com as quais conversei que recebem regularmente subsídios ou subvenções do governo estão preocupadas com isso neste momento”, disse Kai Liekefett, copresidente da área de defesa corporativa do escritório de advocacia Sidley Austin.

A administração Trump está vasculhando outras empresas que considera maduras para algum tipo de envolvimento governamental, disseram três pessoas a par dessas discussões.

Pretexto de ‘segurança nacional’

O governo dos EUA já se inseriu no mundo corporativo americano antes. A administração Obama adquiriu participações em bancos e montadoras após a crise financeira de 2008, e tanto a administração Obama quanto a de Joe Biden usaram subsídios governamentais para promover a tecnologia verde.

Mas especialistas dizem que a iniciativa de Trump é diferente — e mais agressiva — do que os Estados Unidos já viram antes. As empresas que ele tem como alvo não estão à beira do colapso, nem sua falência, como no caso dos bancos durante a crise financeira, desencadearia uma série de eventos que poderiam levar à ruína econômica global.

“Os Estados Unidos sempre foram cautelosos em relação à linha divisória entre empresas públicas e privadas”, disse Jonathan Levy, historiador e professor da Sciences Po em Paris e autor de “Ages of American Capitalism: A History of the United States” (As eras do capitalismo americano: uma história dos Estados Unidos).

“A única vez em que isso foi suspenso”, acrescentou, “foi no contexto de uma guerra ou de interesses de segurança nacional”.

A Casa Branca insiste que a segurança nacional está, de fato, impulsionando os seus investimentos e contestou a ideia de que adquirir participações em empresas de importância crítica prejudica livre-mercado.

A Intel recebeu uma subvenção de cerca de US$ 11 bilhões como parte da Lei dos Chips, uma lei bipartidária aprovada durante a administração Biden com o objetivo de tornar os Estados Unidos menos dependentes da Ásia para a fabricação de semicondutores.

O secretário do Comércio, Howard Lutnick, argumentou que, ao adquirir uma participação acionária, os contribuintes americanos obterão os benefícios de qualquer impulso concedido à Intel.

“Esta não é uma empresa qualquer”, disse um funcionário da Casa Branca. “Isso é algo tão crítico para a segurança nacional que justifica essa ação”.

Mas algumas das medidas recentes de Trump parecem ser uma forte ruptura com os precedentes históricos. Nos casos da Nvidia e da AMD, o governo Trump propôs ditar o mercado global ao qual essas fabricantes de chips podem ter acesso. As duas empresas prometeram dar 15% de sua receita proveniente da China ao governo dos EUA para ter o direito de vender chips naquele país e contornar quaisquer restrições futuras dos EUA.

David Sicilia, professor associado emérito de história da Universidade de Maryland, disse que nunca viu uma época em que os Estados Unidos tivessem mudado a sua política comercial para visar uma ou mais empresas específicas.

“A interpretação menos generosa é que se trata de extorsão”, disse ele.

Ao discutir o acordo com a Intel na sexta-feira, Trump disse que o CEO da empresa “entrou querendo manter o seu emprego e acabou por dar US$ 10 bilhões para os Estados Unidos”.

As empresas americanas criaram defesas contra investidores como Carl Icahn e Nelson Peltz, que normalmente adquirem participações em empresas com dificuldades no mercado público e, em seguida, as pressionam a fazer mudanças que elevem o preço das suas ações, como vender uma divisão ou substituir um CEO.

Mas, ao contrário de um ativista corporativo tradicional, Trump nem sempre vinculou claramente seus apelos por ações corporativas — seja destituir um diretor executivo ou “arcar com o custo das tarifas” — aos retornos da empresa.

Por enquanto, os acionistas da Intel reagiram favoravelmente ao envolvimento cada vez maior do governo. As ações da Intel fecharam com alta de mais de 5% na sexta-feira, quando Trump anunciou que o governo iria adquirir a participação. As ações de concorrentes como a AMD caíram desde que a notícia do possível acordo se tornou pública na semana passada, uma queda que os analistas atribuem em parte à expectativa de que o governo apoiará a Intel em detrimento de outras empresas de chips.

“Se estiver focado no curto prazo, então esse tipo de acordos pode ser benéfico, porque vai acabar por ser pressionado de qualquer maneira”, disse Sarah Bauerle Danzman, cientista política e professora associada de estudos internacionais na Escola Hamilton Lugar de Estudos Globais e Internacionais da Universidade de Indiana.

Mas, ela alertou, “uma vez que o governo se envolve na tomada de decisões estratégicas, essas escolhas estratégicas não são mais motivadas por considerações de mercado”.

O crescente envolvimento do presidente com empresas privadas também levanta questões mais amplas sobre a perda de proteções para os acionistas comuns.

“Estamos acostumados a ouvir acionistas controladores dizerem: ‘Quero obter benefícios privados do controle. Eu também sou o CEO. Quero receber um pacote de compensação de US$ 56 bilhões’. Temos maneiras de lidar com isso”, disse Edward Rock, professor de governança corporativa da Universidade de Nova Iorque.

“Mas se o governo encorajasse uma empresa a encerrar os seus planos de internacionalização, por exemplo, não temos doutrinas no direito societário que nos permitam analisar essa situação”.

Empresas tentam sair ‘da mira’ de Trump

Rejeitar as exigências de Trump não será fácil. Processar o governo provavelmente não é um caminho produtivo, disse Liekefett, advogado da Sidley Austin.

Embora a Lei dos Chips não autorize expressamente o governo a adquirir participações acionárias em empresas que recebem subsídios, ela contém uma linguagem que pode ser interpretada como dando ao governo uma autoridade mais ampla, disse ele.

O manual atual para as empresas evitarem a ameaça de uma participação do governo ou outras exigências extraordinárias, dizem os consultores corporativos, é continuar o que já estão fazendo para ficar fora da mira de Trump: limpar os sites públicos de linguagem sobre diversidade, equidade e inclusão e fazer mais visitas ao presidente em Washington.

O CEO do Goldman Sachs, David Solomon, por exemplo, visitou Trump quatro vezes desde que ele assumiu o cargo em janeiro, de acordo com duas pessoas com conhecimento das visitas. Esse é um número incomumente alto para o CEO do banco.

Especialistas dizem temer que esse tipo de clima de negócios esteja corroendo a igualdade de condições que eles acreditam ser crucial para o sucesso do país a longo prazo.

“Quem vai querer investir em empresas que o governo não apoia?”, questionou Dan Ikenson, economista e especialista em comércio. “O que acontecerá com empresas promissoras que não bajulam Trump?”.

Estadão



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